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Pandemia afeta trabalho e renda de catadores de resíduos sólidos em Fortaleza Featured

Após o fechamento do comércio pelo decreto do Governo do Ceará, no dia 19 de março, houve uma redução considerável na quantidade de materiais destinados à reciclagem e ao descarte. Os catadores de resíduos sólidos, responsáveis pelo recolhimento e pela separação dos excedentes de produção, tiveram sua principal fonte de renda reduzida.

Muitos galpões onde ocorria a separação do lixo tiveram que interromper suas atividades tanto pelo risco de contágio do novo coronavírus, quanto pela falta de materiais com que trabalhar.

Neste cenário, a gestão pública municipal recomendou que o funcionamento de associações de catadores só ocorresse caso as medidas de segurança, apontadas pelas autoridades de saúde para funcionários e clientes, pudessem ser garantidas. Como forma de reduzir os impactos da suspensão das atividades nos galpões, a Prefeitura Municipal de Fortaleza (PMF), apoiando o Movimento Supera Fortaleza, tem dando o auxílio de 265 cestas básicas para catadores de materiais recicláveis, de 12 diferentes associações.

Dentre as beneficiadas pela ação estão Socrelp, Aran, Rosa Virgínia, Ascajan, Brisamar, Raio de Sol, Acores, Viva a Vida, Maravilha, Mulher Luta e Cena, Reciclando e Rosalina. Além disso, segundo a Secretaria Municipal da Conservação e Serviços Públicos (SCSP), apesar de não haver contrato de trabalho ou outro vínculo com os catadores, a PMF incluiu 605 carroceiros cadastrados no programa E-Carroceiro para receber cestas básicas do programa Comida em Casa, gerado a fim de beneficiar 138 mil famílias em situação de vulnerabilidade.

O coordenador da Associação dos Catadores do Jangurussu (Ascajan), Adalto Barbosa, 63 anos, tem encarado o cenário da pandemia com muita tristeza. Mesmo com o fechamento dos comércios, o galpão de separação dos materiais para reciclagem continuou em funcionamento com o estoque restante até o último dia 16, porém, logo precisou fechar as portas. Não havia mais material e a necessidade de permanecer em casa lhe parecia cada vez mais importante. Agora, explica que o galpão só deve reabrir quando o comércio e os estabelecimentos voltarem a funcionar.

Para conseguir se manter sem a principal fonte de renda, o catador recebeu uma cesta básica de doação. "A gente está levando por enquanto, mas eu vivia mesmo era dos materiais recicláveis", lamenta. Ainda que esteja seguindo as recomendações de permanecer em casa, sente falta do trabalho. "Estou isolado em casa. Sinto falta do movimento, mas temos que seguir e ficar em casa", reconhece.

Sebastiana do Carmo Alves, 43 anos, também sente falta do galpão onde trabalhava. A integrante da Ascajan compartilha a saudade com a antiga rotina. "A gente é como uma família que depende da reciclagem. Mas hoje sabemos que tem que ficar em casa. A gente pede a Deus que não bote nenhum catador em perigo e rezamos para que todos se cuidem".

Na Ascajan, tinham 57 famílias trabalhando na associação, com quatro pessoas acima de 60 anos, enquanto as outras têm idade entre 25 e 50 anos. Apesar da tristeza de ter que ficar afastado do trabalho e da preocupação com a questão financeira, Sebastiana entende a importância de se manter em isolamento. "No mês passado, a gente recebeu uma cesta. Agradecemos por alguém se importar com o catador. Como a maioria da renda vem da reciclagem e do bolsa família, é difícil estar com essa paralisação", finaliza.

REDUÇÃO NOS PREÇOS

A presidente da Rede dos Catadores de Resíduos Sólidos e Recicláveis do Estado do Ceará, Lilian Teixeira, aponta que a redução no pagamento pelos materiais é um outro problema enfrentado pelos catadores que ainda seguem tentando manter a atividade. O quilo de PET, material das garrafas de refrigerante, antes vendido por R$1,30, agora varia entre R$0,30 a R$0,80.

O papel e ferro, respectivamente ofertados por 10 e 23 centavos, pararam de ser comercializados.

Os 300 associados, em Fortaleza e Região Metropolitana, receberam orientações de como o trabalho deveria ser realizado no contexto da pandemia. "Aconselhamos pessoas do grupo de risco a se afastarem das atividades. Dentro dos galpões, foi feito um trabalho de limpeza e de organização para que depois pudéssemos retornar às atividades normalmente, mas a situação foi entrando em colapso e o comércio fechou", compartilha Lilian. Com isso, não há o que coletar, afetando o trabalho dos catadores organizados em redes e dos independentes.

Os catadores da Vila União têm trabalhado, utilizando máscaras e outros instrumentos de proteção, até o meio dia com quantidade mínima de resíduos, mas segue não tendo como comercializar. A associação Raio de Sol, no Eusébio, optou por abrir a cada dois dias, enquanto outras decidiram encerrar o serviço temporariamente, como a Ascajan. "Às vezes só vamos abrir o galpão. Temos medo de que os espaços fiquem trancados por muito tempo e as pessoas queiram mexer. Então estamos tendo o cuidado de abrir, e movimentar", explica Lilian.

DIREITOS

No contexto de coronavírus, Lilian Teixeira comenta que a luta tem sido para conseguir cestas básicas, materiais de higiene, luvas e máscaras, mas os associados buscam principalmente o direito ao trabalho com qualidade, estabilidade e estrutura. No cotidiano, os catadores enfrentam problemas para circular e recolher os resíduos sólidos; transportá-los até os galpões e até para ter a vestimenta necessária de proteção. "Administrar não é dar oportunidade sem condições, é dar condições de oportunidades", aponta a presidente da rede estadual.

Em sua visão, o trabalho dos catadores teria uma qualidade ainda maior do que já possuem hoje se tivessem condições melhores para trabalhar. "A gente não acredita em bonificação, como ocorre com os Ecopontos, mas sim na prestação de serviços, na profissionalização, na inclusão de profissionais que estão ligados diretamente com essa atividade de recolhimento dos resíduos, porque somos sim um número significativo da indústria", conclui Lilian Teixeira.

Fontes D/N

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Carlos Juca