A América entre a luz e as trevas

A América entre a luz e as trevas

Por: Braulia Ribeiro, colunista do BSM. Os Estados Unidos vivem hoje a batalha que o Brasil enfrentou nas eleições de 2018. Confrontam-se nas urnas duas visões morais completamente diferentes e opostas: a liberdade civil versus controle estatal absoluto da vida social Na noite de ontem (22), Trump e Biden se enfrentaram no ultimo debate antes

Por: Braulia Ribeiro, colunista do BSM.

Os Estados Unidos vivem hoje a batalha que o Brasil enfrentou nas eleições de 2018. Confrontam-se nas urnas duas visões morais completamente diferentes e opostas: a liberdade civil versus controle estatal absoluto da vida social

Na noite de ontem (22), Trump e Biden se enfrentaram no ultimo debate antes das eleições. Trump conseguiu extrair de Biden três confissões importantes: a de que se eleito vai impor medidas autoritárias no combate ao Covid; a de que vai estatizar o sistema de saúde; e a de que quer mesmo eliminar a indústria americana do petróleo. Essas três declarações bastariam no passado para demover o eleitor americano de votar em qualquer candidato. Agora, não mais. Os eleitores de Biden não vão abandoná-lo, porque o apoio que ele tem não é racional, é emocional. Trump os faz sentir mal moralmente. E é assim, pela emoção moral, que o país está dividido.

Os Estados Unidos vivem hoje a batalha que o Brasil enfrentou nas eleições de 2018. Confrontam-se nas urnas duas visões morais completamente diferentes. Não é uma diferença pequena, relacionada a aspectos da política econômica ou externa como costumava ser o foco da divergência entre os democratas e os republicanos. Agora a diferença é abissal. Competem nas urnas a liberdade civil versus controle estatal quase que absoluto de todos os aspectos da vida social; a responsabilidade individual versus narrativa de vitimização; a ideia da religião como aspecto fundamental da existência versus religião como instrumento de opressão. Competem a identidade histórica que confere dignidade ao país contra a história revisionista que destrói toda a virtude do patrimônio histórico comum; a identidade nacional contra identidades interseccionais atomizadas ― e por aí vai. A lista da destruição é grande.

A quase-hegemonia conservadora/liberal (ainda no sentido mais antigo da palavra) dominou a política americana até a presidência do democrata Woodrow Wilson, que governou de 1913 a 1921. Wilson um dos primeiros americanos a obter um PhD, formou-se em Johns Hopkins, e foi presidente da Universidade de Princeton antes de sua carreira política. A educação de Wilson fez diferença para pior na sua perspectiva política. Na época a academia já estava profundamente influenciada pelo liberalismo que mais tarde se desenvolveria na esquerda radical, que hoje domina quase que integralmente o cenário universitário americano.

O presidente foi bem “educado” nos pressupostos liberais-progressistas que questionam o valor histórico das instituições democráticas. Como fundador da “Liga das Nações”, ele idealiza a concessão paulatina do governo nacional a uma liga internacional de países que supostamente resguardaria a paz mundial. Wilson foi um homem profundamente devoto, mas infelizmente, como muitos cristãos evangélicos e católicos na América de hoje, presumia que através da política correta poderia construir na terra a sociedade ideal que antes só a teologia se permitia supor. Woodrow Wilson inaugurou na América o progressismo, que acabou se tornando o monstro que em junho deste ano baniu o seu fundador do panteão de heróis de Princeton ― porque além de progressista nosso amigo também era racista e segregacionista.

Irônico é pensar que o progressismo radical que tomou o país hoje também tende a voltar ao infame segregacionismo, mas pelas razões opostas, para “proteger” a população negra dos males que os brancos, horríveis carrascos nazistas, podem lhes causar. Desde então, o monstro do progressismo foi alimentado principalmente pelas universidades, lançando a semente do ciúme e do ressentimento no coração de milhões de jovens, invertendo o código moral no qual se firmava a cosmovisão americana. Essa visão moral do progressismo torna o conflito das urnas uma guerra entre luz e trevas.

O clássico de C.S. Lewis “A Abolição do Homem” fala da destruição paulatina dos princípios morais que sustentam a civilização ocidental e descreve com precisão profética o conflito entre as duas visões de mundo. O lado conservador acredita que exista uma moral fundamental comum a todos os seres humanos, que pode ser compreendida e valorizada apesar das diferenças culturais entre as pessoas, porque diz respeito à condição humana universal. Essa moral é objetiva e se realiza na ordem social. O lado progressista não acredita que existam interesses morais comuns a todos; veem a ideia da moralidade como uma questão de reação emocional. Se você se ofende com certo comportamento, ele é errado; se ele te agrada, é certo. C.S. Lewis é discreto demais para mencionar nominalmente o filósofo A. J. Ayer, seu contemporâneo e principal teórico do emotivismo (uma verdadeira praga, filha do positivismo); mas em “A Abolição do Homem” Lewis demole a ideia do colega, expondo as suas implicações insidiosas para a sociedade.

Os progressistas, tendo renunciado à noção de uma natureza humana constante e comum a todas as “raças” e culturas, e tendo também rejeitado a ideia da transcendência e da origem espiritual do ser humano, perderam a capacidade de estabelecer uma noção plausível de moralidade. C.S. Lewis aponta para o fato de que, uma vez estabelecido que não existe um Deus que comanda a ordem moral, e portanto a não-existência de uma ordem moral superior à racionalidade humana, a noção de um terreno comum se torna muito difícil de ser fundamentada. Até a ideia da lei natural que parecia poder salvar a noção de moral na ausência de Deus não resiste à abolição da transcendência ― e por causar mais e mais desconforto foi abandonada.

Começa com Hobbes o desespero para definir a ideia de moral fora do alicerce teísta. Hobbes lança a semente da moral como sendo um mero “sentimento” e escolhe a ideia da imposição arbitrária e totalitária do estado como a única alternativa à barbárie. Aí chegamos à ideia do contrato social, de Locke e Rousseau, também frágil e mutável e dependente de uma homogeneidade cultural que o mundo pluralista não tem. Passamos para o entendimento da moral como uma questão utilitária, ou como produzir o prazer máximo para o maior número de pessoas, de Jeremy Bentham e John Stuart Mill. Aí vem o super-homem de Nietzsche proclamando a moral do poder. Chegamos então no instinto animal, baseado na evolução de Darwin, que além de trazer no seu bojo a nociva ideia de raça, transforma-nos em um amontoado de células sem significado além da existência biológica. Nenhuma destas ideias resgata a moral do limbo das ideias inconsistentes.

Restou para os liberais de hoje ficarem reféns da noção de moralidade como foi definida por A. J. Ayers, chamada de Emotivismo, com a qual C.S. Lewis já tinha se tornado familiar. Para Ayers, como somos condicionados a nos sentir sobre um fato, situação ou frase é o que determina o que pensamos ser certo ou errado. O que é certo não se reconhece mais racionalmente, mas através da emoção. Os termos justiça, dever e piedade já não têm mais um sentido objetivo, mas são definidos subjetivamente de acordo com o que eu sinto ser justiça, dever e piedade em um dado momento. O certo e errado se resume “ao que eu aprovo” e “ao que eu desaprovo”. Esta teoria, apelidada de moral “Boo/Hooray” (a vaia ou o viva) norteia hoje a discussão pública sobre políticas públicas e ordem social no mundo do Partido Democrata, criando a cultura “woke.” Os progressistas usam expressões que um dia significaram julgamentos éticos, mas que hoje possuem um conteúdo meramente emocional. Ser ético, no mundo progressista, é ter uma reação pavloviana a estímulos linguísticos.

Por isso, quando Trump organiza um comício ordeiro, sem tumulto nem violência, é xingado por perturbar a paz e espalhar Covid-19. Mas quando os loucos do Antifa se reúnem para depredar lojas e o patrimônio público, são elogiados por reivindicar justiça.

Infelizmente não parece existir mais um ponto de intersecção entre as duas visões de mundo. Elas são distintas uma da outra como a luz e as trevas. Democratas e republicanos podem falar o mesmo idioma, mas não querem dizer a mesma coisa. O julgamento recente dos policiais que fizeram parte da invasão à casa do namorado de Breonna Taylor, a moça negra que acabou sendo morta por um policial, em Louisville, Kentucky, é um exemplo disso. Para as pessoas que analisam os fatos e se preocupam com os detalhes objetivos da atuação policial, não houve abuso de força ou crime por parte dos policiais. Eles bateram, a porta não foi aberta, eles arrombaram e entraram, o que lhes era permitido pelo mandado judicial que tinham em mãos. Foram recebidos a tiros pelo namorado da moça, e responderam em autodefesa, o que é também permitido. A morte da enfermeira Breonna foi uma tragédia terrível, mas foi a consequência de uma ação policial perfeitamente legal. Estes são os fatos. Mas as emoções sobre o assunto da violência policial hoje não permitem aos democratas uma leitura objetiva deles. Até hoje pessoas se aglomeram na rua da corte em que os policiais foram isentados de indiciamento, instruídos pela extrema-imprensa a não se conformarem com a “injustiça”, que foi a morte da garota. Apregoa-se que a polícia é ruim, não importam as circunstâncias; portanto, a lei não importa, os precedentes não importam, a “justiça” subjetiva tem que ser feita, e os “opressores” punidos.

Biden e Harris já deram mais de uma prova de que são emotivistas. Harris, que como eu já disse aqui importa mais do que o gagá-morto-vivo Biden, fez a sua carreira como procuradora evitando a objetividade da lei. A visão de Trump a gente já conhece. Para ele existe bem e mal, certo e errado, lei e ordem. O choque de cosmovisões está claro. Se a América ceder ao progressismo, o resto do mundo vai ficar no escuro, porque terá se apagado o último farol de clareza moral do ocidente.

Fonte: BSM

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